segunda-feira, 27 de março de 2017

EDEMA COM CHUMBO QUENTE

Meus caros João e Fernando. Nada é para logo. Nada é para o instante, ao menos. Isso sobre o que falamos, sobre o que digo aqui, acolá, é fruto de reflexão de anos. Questiono tudo, porque quê é tão aterrorizante a ideia de interromper um jogo do qual não tive chance de dizer não? Não quero! Porém há muito ainda antes de qualquer coisa, qualquer ato, ainda que o nado seja contra a correnteza a perseverança me obriga crer que algo ainda possa ser realizado. Então,


QUANDO TUDO CONSPIRA CONTRA MIM

Não é só a saudade o que me
deixa triste,
tudo o que vejo ou sinto
não dá conta de uma existência
é muito longe do quê…
do que sonhei, quis viver.

Daquilo que tenho, mas desconheço
dos corpos que toquei
das pedras que pisei
do chão que brotei
e ainda quase nada ou nada sei.

Remoto passado minha cidade
toda nostalgia melancólica
nem me ampara nem me protege
não existe magia não existe poesia
porque o ânima que me anima
cansou de brincar.

Não há amor não há violão
nem tropeço necessário
ou motivo para rebelar
dúvidas, razões, coragens
medos, expectativas, consolo.
Esperar ou partir?
Partir ou esperar?
Ser o vingador sem razão de vingança?
Tampouco entendo razão plena pró humanidade.

Me despeço sem lágrimas
Sem paixão sem remorso sem dúvida
Um pouco de saudade talvez
Do tempo que cri saber ser amor.


Bem, o espírito é matéria fluída enquanto a carne é um peso, são matérias completamente diferentes. Nossa essência, nosso sentimento, nosso pensamento germinam em nosso espírito enquanto a carne nos impõe necessidades fisiológicas. A carne fede, deprava, corrompe, oprime, vicia. Porque utilizamos de tanto artifícios para nos maquiarmos em felicidade? Diversão, ópios, viajar, conhecer… a que? A quem? Tem uma música do Novos Baianos que nos pergunta “Porque não viver este mundo, se não há outro mundo?” De fato não há.


JULIETA NEM VEM MAIS

Enraízo, envelhecemos.
Como tudo é seu instante
Racho, seco, transpasso,
Orvalho, amanheço auroras.
Esparso vida esvai-se alegrias.
Triste fim esta linda morada
Este céu impecável do sudoeste
Este pôr-se do sol, definitivo.
Esvazia-me e silencia-me sua ausência
Essa insistência em ser não;
Esta cama vazia – Eita! Manhã fria.
Sou um homem doente
Carente de qualquer túmulo,
Estrangeiro de qualquer lugar,
Viciado, dependente, acabado.
Romeu em busca de fármacos
Porque Julieta já não vem mais
À Mântua.
Um tanto veneno remédio
Pro abrir e fechar dos olhos,
Pra fechar e não abrir a alma.

Agora chove, quem me dera chovesse para sempre. Com um fraterno abraço,

Alam Félix

Um comentário:

  1. Leio aqui os últimos produtos (muito) poéticos sobre o seu conceito de lógica da vida e me vem essa grande vontade que sempre me toma sobre o os motes que levam os poetas a escrever e a escrever assim, desse jeito, desse modo que nos move a querer decifrar tudo o que sai dessa lavra. A querer decodificar o poema e o(s) sentimento(s) que ali estão impressos, não apenas na letra, claro, mas impressos na alma do seu criador. Não raro, o (des)amor, a angústia, o desejo, a tristeza do espírito e a fantasia estão, de uma forma ou de outra, presentes, no que se mostra ao mundo exterior à alma do artista. Creio que um pouco de tudo isso componha a "lava" que fumega dentro de você e, involuntariamente, saia boca a fora ora em jatos, ora escorrendo de forma sutil e branda. Abraço grande. NANDO

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