Catu, dezesseis de novembro do ano de dois mil e quinze passados do ano da morte de Jesus Cristo. Um dia insuportavelmente quente. Depois de um dia exaltível de aulas, reuniões e caminhadas esfolantes, me sinto morto (pauso agora para tomar um gole de água). A morte também é uma pausa, aliás, vivemos muitas mortes simbólicas durante a jornada. Renascemos com a alvorada para morrer com o crepúsculo. Toda semana eu passo pela morte da despedida, saio da cidade de Vitória da Conquista em direção a cidade de Catu para trabalhar. Ontem, na partida deixei chorando Raul, meu caçula, nos braços de João seu irmão imediatamente mais velho e eu também sigo com aquele nó na garganta, aquele choro reprimido pela idade adulta, embora os olhos estejam mareados. A morte também é uma partida. A partida dói. Há umas madrugadas atrás, sonhei um sonho muito estranho com os meus pais. Me perdoem a insistência do mesmo tema, mas é que estou em processo (se preferir, pode pular o texto e ir direto à poesia). A morte também é um sonho. O personagem Peter Pan sentencia: "Morrer será uma grande aventura". Desde que assisti a versão cinematográfica de 2003 essa frase ecoa meu corpo afora, mas deixemos de preâmbulo e vamos ao ponto que nos trouxe até aqui: a poesia.
CANTE PARA MINHA MORTE, RAUL
Algo inevitável! Não, mais!!!
Evento mais que necessário.
Ao pior inimigo seria demais
decretar sem fim seu itinerário.
Viva alma nenhuma merece
Para sempre o peso da carne.
Quando enfim o corpo fenece
Vão-se juntos saudade, dor, encarne.
De tudo o que quero, não desejo
com pressa, mas sim rápida,
Da morte um beijo frio almejo
Em troca dessa vida ácida.
Raul, o Seixas, favor não me esqueça,
Cante para minha morte, tanto mereça.
Sem mais por hora, um fraterno abraço para todos,
Alam Félix
