quarta-feira, 30 de março de 2016

INTERTÍCIO

“Mas a vida é real e de viés. ” Nunca fui o otimismo em pessoa, mas sempre brotou de mim amor em demasia. Por hora, uma estiagem racha o solo, já seco, em meu peito. Tornando raro em mim o sangue oxigenado, pulsante, para alimentar as minhas células. Hoje corre em minhas veias algum tipo de liquido espesso, lento, grosso que ao se arrastar nesta malha fina causa angustia e sofrimento, sufocando ainda mais a vida que se desafia. Travada entre os dentes a amargura desta lida, sigo confiante em me dedicar ao labor com a esperança de encontrar ambiente que dilua qualquer coisa. Mas hei que me sinto ainda mais invisível diante de espelhos que não me enxergam. Que ignoram qualquer ser humano que não seja o umbigo. Ignorância letrada que chafurda no lodo da causa própria, garantias pessoais e que deitam e rolam no chiqueiro dos benefícios, fg’s, cd’s e prerrogativas abusivas (um poderzinho!), desde os mais altos escalões à ralé que se esbofeteia por migalhas de cifrões de níquel em forma de gratificações, progressões, rsc’s. Me desconheço ao reconhecer meu reflexo suíno sedento pelos mesmos farelos. Cadê o Artista que eu conheci, formei e vivi? Está enfermo em estado terminal? Preciso de uma máquina qualquer que force uma quantidade considerável de oxigênio em meus pulmões com um pouco de vida.



DE OLHOS BEM ABERTOS

com o corpo atônito, amargurado,
em agonia, assustado,
e uma erupção dentro de mim.

de olhos bem vivos, vidrados,
tristes, rendidos, mareados,
e uma erupção dentro de mim.

a alma órfã, em desespero,
cativa, sequestrada,
pregada, de voz embargada:

e uma erupção dentro de mim.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Adeus - 3 de 5

Quando eu era menino vivia querendo saber por quem Jesus Cristo estava apaixonado. Toda Semana Santa era a mesma história: A Paixão de Cristo. Aí, a gente comia as guloseimas preparadas por minha mãe, bebia-se bastante vinho numa confraternização universal, mas o nome da paixão de cristo eu não ouvia em nenhum instante. Nem ouviria, porquê paixão é um estado de martírio, ela suscita sentimentos como medo, raiva, tristeza, ciúme, discórdia e inveja, e fatalmente nos conduz à obsessão. O apaixonado sofre, deste ponto de vista, a paixão é uma doença. A filosofia tem se debruçado sobre ela desde de Platão, mas eu prefiro a sentença de Hamlet: “Dá-me o homem que não seja escravo da paixão”, ou seja, ele entregaria de bom grado seu coração ao homem que fosse senhor de suas emoções. Hamlet, é a obra prima do bardo inglês Shakespeare, que ontem, 23 de abril, é a data de seu nascimento e morte. Sou um homem do teatro, atuei, dirigi, maquiei, escrevi peças, desenhei figurinos e cenários e planos de luz, sem dúvidas, entre tantas obras que tive o deleite de apreciar, a paixão do príncipe Hamlet é a que eu quero levar comigo, não porquê tem como tema um drama de vingança, sim a paixão que consome o príncipe dinamarquês é a vingança pelo assassinato de seu pai, mas ela em si é um tratado sobre a humanidade. Ela é existencial. E o que aprendemos com sua paixão? Pobre do homem que acha que os problemas do mundo estão nos outros.


III

Meu corpo é um jardim
E a minha vontade é o jardineiro.
Talhei minha coragem no marfim,
Iluminei horizontes com ofuscante candeeiro.
Oh! Admirável mundo novo!
Cheguei sem deixar saudade.
Conheci fronteira, sentimento, arma, povo,
Mas minha melhor bagagem é a idade.
Cicatrizes serão sempre inevitáveis.
Antes amar que ser amado,
Pois todas as regras são execráveis,
Afora, o melhor amor é o amor ofertado.
            Até logo, neste instante te vejo, até breve, adeus”
            Hoje não existe porto para os sentimentos meus.


Vou realizar uma quebra no protocolo, que é publicar um texto não autoral, mas uma vez que falamos em Shakespeare, seria uma mácula não socializar tal soneto, com tradução de Ivo Barroso.:

SONETO 66

Farto de tudo, a paz da morte imploro
Para não ver no mérito um pedinte,
E o nulo se ostentando sem decoro,
E a fé mais pura em degradado acinte,
E a honra, que era de ouro, regredida,
E a virtude das virgens violada,
E a reta perfeição ser retorcida,
E a força pelo fraco subjugada,
E a prepotência amordaçando a arte,
E impondo regra o tolo doutoral,
E a verdade singela posta à parte,
E o bem cativo estar do ativo mal:
            Farto de tudo, a morte é o bom caminho,
            Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.


Por hoje é só. Sem mais delongas, um fraterno abraço.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Adeus - 2 de 5

Quem nunca leu o Discurso do Capibaripe do Cão sem Plumas de João Cabral de Melo Neto, por favor, pare o que esteja fazendo e corra para ler. Agora, você tem mais uma evidência sobre a pessoa que é esta criatura que por hora se desnuda num breve adeus. A Deus. Ao Deus dará. Porque sobrevivi a 2015, suportarei 2016. Na verdade, a gente nunca está preparado para o porvir, mas por hora, o coração gasto é o lastro desta barca desgovernada em que está a minha vida. Sem desespero, há duas formas de dores: aquela que nos fortalece e aquela inútil, que só faz doer. Há o amor. Ele pode ser a cura, mas também dói. O grande problema são as regras que criamos e as quais nos obrigamos a seguir. Temos que escolher a quem amar, segundo certo modelo, ect, ect... eis o equívoco, não é assim que funciona. A gente ama. Não escolhe a quem amar, nem até quando e o desejo, que caminha de braços dados com o amor, é outra história. Então, a partir do exposto, lembro de A Maçã, de Raul Seixas. Raul, outro baiano virado na porra, é mais um dos artistas que me nortearam neste mundo de meu Deus. Por favor, se você não conhece, ouça. O texto a seguir é inspirado nela, um adeus embebido do maluco beleza:


II

Nós e eles:
E um muro bem alto
Nos separando pra sempre,
do mundo, do mundo, do mundo...

Eu e você:
E tantos obstáculos
Teimando em dizer não,
Não, não, não...

A vida é tão leve para quem sabe sorrir.

Veja!
Este mundo é apenas
Um ensaio para o outro
Que está por vir.

Lá, talvez seja possível
Finalmente ser feliz.
Tudo o que nos afastava
Possa, então, nos unir.

A vida é tão leve para quem sabe sorrir.

Você e eu:
Amando em liberdade
Sem barreiras nem muros,
E a inteira verdade.

O amor é a lei
Da tão sonhada utopia,
Que contagia soberano:
Eles e nós.

terça-feira, 15 de março de 2016

Adeus – 1 de 5

Tomarei de assalto, como preâmbulo, texto de Antônio Torres: “A mulher é como o mar, aparentemente calmo, transparentemente revolto. Como o mar, quente em cima e frio embaixo, mas dependendo da lua pode acontecer o contrário: frio em cima, quente embaixo. Como o mar, cheio de ciclos e ondas que vêm que vão e arrastam tudo. O mar que chicoteia as rochas como a mãe da gente chicoteava as nossas costas, a mesma mãe que nos lambia de afeto como o mar lambe a areia. Ah, menina, bom mesmo era estar agora na praia, sendo lambido pelo mar e lambendo uma mulher na areia. Uma mulher de qualquer cor, qualquer tamanho, qualquer idade. Que revirasse os olhos de prazer, tresvariasse o corpo num gemido de amor como se o mundo fosse acabar no próximo minuto. Ah, menina, não há nada que valha mais que uma buceta! ” Tive meu primeiro contato com a obra de Antônio Torres através de “Essa Terra” na antiga 7ª série do primeiro grau e me encantei com as imagens que sua narrativa criava, a classe a que seus personagens pertencem é o extremo oposto de tudo o que já tinha lido até ali. Virei voraz leitor de Torres e li tudo o que ela já publicou. O texto em questão pertence a “Adeus Velho!” e eu o recitei há pouco numa reunião festiva em que a presença era em sua maioria feminina, uma vez que estamos no mês em que se comemora o dia da mulher, lembrei dele e o soltei (revendo-o agora vejo que houveram falhas de memória, e na hora, modifiquei também o final por puritanismo). Assim eu começo a me despedir, com Antônio Torres, autor baiano, do Junco (hoje Sátiro Dias) e que estudou no Ginásio de Alagoinhas, e provocou uma mudança em minha vida; ele que usou o seu universo, que é o mesmo em que cresci, para narrar suas histórias e me possibilitou começar a sonhar. Vislumbrar romper fronteiras...

ADEUS

I

- Essa terra me consome!
Hora parece dia, dia parece hora,
Interceda, minha Nossa Senhora,
Enforcado não resguarda o nome.
Quis amá-lo em meus braços,
Mas a perdiz é rápida, ligeira!
Perdi-o pro mundo, quem sabe Deus queira
Esse meu amor solto, sem laços.
- Se estiver vivo um dia ele aparece!
Mas não espero, morreu-me esperança.
O meu brinquedo de quando era criança,
Essa terra miserável esmorece.
            Preciso de só mais uma dose de cachaça,
            Um abraço, e parto em busca de outra praça.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Te peguei, desgraçado!

Há alguns dias eu desafiei: “Me faz todo o seu mau de uma vez! ”. E não parei por aí: “Destila, enfim este teu ódio/E envenena-me todo ilusório. ”. E eis que eu ainda tive a pachorra de lhe enfiar o dedo na cara: “Ou mata-me antes de nova aurora. ”. E, porque, caros leitores, estava eu embebido de tanta empáfia para proferir palavras tão desafiadoras à ela? Será que lá no âmago de meu ser eu acreditava já caminhar a estrada da salvação? Aquela que me guiaria da escuridão em que eu vivia novamente para a luz, e mesmo antes de concretizá-la, estava tão seguro de si, que impus tal desafio, certo de que estava com as cartas do triunfo na mão? Ledo engado. Porque ali se desenhava a ‘nova aurora’, “E o sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo”, Ah, Cartola! Essa alvorada onde não se chora nem há tristeza está cada vez mais distante, quando seu verdadeiro algoz sou eu mesmo meu próprio Judas com a forma mais cruel de se trair: com um beijo. Desde de então, justo o contrário, instaurou-se novo crepúsculo. Desolado, escuto a todo instante: “Te peguei, desgraçado! ”
“Te peguei desgraçado! ” e o vaco. Um rombo descomunal no corpo, na alma, na vida. Me resta uma “súplica cearense”, oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração.  Eu te ofendi com o meu desejo e errei ao te desafiar, mas arrependido e prostrado de joelho rogo tamanha prontidão ao meu pedido de perdão, vida, como foste rápida ao responderes ao meu desafio. Meu destino é teu, o tempo é teu, dias e noites são teus. Ainda que me atire às trevas, por favor vida, não me negue as estrelas.


TE PEGUEI DESGRAÇADO!

Veja as coisas como são:
Um minuto põem fim,
Nos anos de uma reputação.
Já disse, eu nunca quis assim,
Meu querer não é vagabundo,
Mas carrego agora as dores do mundo
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

Por mais que pense, medito
Como diz o ditado antigo
Não há nada mais a ser dito
Porque todo crime merece castigo.
Castigue então, declare sua desavença,
Impunha, grite-me esta sentença,
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

Errar é humano, não é humano
Permanecer no erro,
Não me julgue um carcamano
Tampouco um coração de ferro.
Meus nervos não são de aço,
Oh! Vida, necessito seu regaço,
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

quinta-feira, 10 de março de 2016

MEDIDA POR MEDIDA

Tenho estado em constantes metamorfoses ao longo destes últimos meses. Namoro a embriaguez para suportar ou ao menos aliviar a dor que me consome. Estar sóbrio é estar triste, entorpeço. Há poucos dias de completar um ano, repasso os fatos tentando entender o inentendível... é só a vida que passa, nos engolindo com sua totalidade imensurável. Dada as características das dores particulares. Dores alheias seriam mais profundas que as minhas? Apois, ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’, canta Caetano. Temos sentimentos e eles são particulares, compartilhados, universais. Carrego no peito mais amor que meu coração suporta amar, e amo, amei, amarei sempre da forma mais intensa, porém elementar, que os meus braços alcançam abraçar. Sinto falta da minha mãe, sinto falta dos meus filhos, sinto falta de mim. É possível partilharmos com outras o mesmo sentimento, mas ainda assim, temos nossa perspectiva, dimensão, profundidade. Das dores nos fortalecemos. São, talvez, o que nos torna demasiadamente humanos porque elas denunciam nossa fragilidade e nos expõem. Por esta trilha espinhosa e pedregosa arrastamos nossa cruz e por hora, é tudo o que eu entendo por vida:


MEDIDA POR MEDIDA

Me faz todo o seu mau de vez!
Por favor, não meça esforço,
Esta dor aguda mereço, torço,
Não findará aqui minha vivez.
Pese na mão, seja mais cruel.
Destila, enfim, este teu ódio
E envenena-me todo o ilusório,
A estas dores é fácil ser fiel.
Ou antes de nova aurora me mata.
Este artista decadente implora,
Minha estéril primavera, não flora.
Assassina-me sem delongas, Beata!
         Conta-me seus segredos mais sórdidos, oh vida,
         E então te amarei na morte, ainda mais, querida.