domingo, 18 de dezembro de 2016

NÃO TIRE ESSE BEIJO DA MINHA BOCA

Vitória da Conquista, 18 de dezembro de 2016. 20H22.

Meu caro Fernando,
Já se completou um ano que visitei a sua casa e de lá pra cá nunca mais nos encontramos. Meus caminhos me afastam cada vez mais de Alagoinhas. Contrariando meu registro me sinto de lugar nenhum. Na verdade, eu queria estar tantos lugares... Nando, meu velho, e as meninas, como estão? Nêgo, hoje passei o domingo numas de apertar parafusos e entre um parafuso e outro me perguntava, quando a gente ama a gente ama sempre da mesma forma? ... E tome-lhe a girar a chave de fenda para dentro... Eu me responderia que não(?) e tenho um leque de formas de amar para distribuir na mesa como demonstração. Eu amo os meus filhos, mas amo a todos da mesma forma? Eu amo minha mãe. Eu sei que amar é difícil. Eu sei o quanto amar é egoísta. Eu sei o quanto amar atrapalha o desejo. Eu sei amar(?). Também sei do querer ou do quanto quero(?). Meu caro, você sabe, como tenho sido um eterno retorno de minhas dores, os registos neste blogue são réus e testemunhas. Porém, esta fonte inesgotável exorta mais uma vez, enquanto ebule o sangue que faz da respiração uma erupção que contamina todos os sentidos que me deixa a mercê instintivo dos reflexos que embriaga a razão. Até quando?

Não Tire Esse Beijo Da Minha Boca

Não me negue esse ópio,
Me deixa tão feliz e leve...
Não me tome esse copo,
Tome-me em seus braços, me leve.

Não proíba esses vícios,
Acolha as minhas tristeza e alegria.
Não julgue esses delírios,
Fantasia comigo a sua sabedoria.

Não negue o inteiro, não me peça pouco,
Viva essa fome de afagos, loca.
Não subtraia essa essência, tampouco,
Não tire esse beijo da minha boca.


E assim meu caro amigo Fernando, Fernandinho, peço licença para terminar o meu cachimbo. Com um fraterno abraço...

Alam Félix

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Adeus - parte 5 de 5

Quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Boa tarde caros amigos,

Em 05 de setembro de 2016, uma segunda-feira, completei 43 anos. Não fora um dia festivo. Na madrugada do domingo, 04, pra segunda-feira, 05, faleceu uma pessoa muito querida, o ‘Ti Jonas” da minha ex-esposa Adriana. Eu o chamava de “fogueteiro” porque no São João, lá no Guigó, ele fazia a alegria da galera soltando os rojões. Era a alegria em pessoa. Então... dessas coisas que nos põe a ruminar, ou seja, pensar profundamente. Metamorfoses são necessárias. Neste longo período ainda não encontrei chão para me firmar, mas sigo respondendo às demandas que a vida nos passa, por isso estou de mudança para a cidade de Vitória da Conquista para ficar próximo dos meus filhos. Também pra tomar um prumo, este prumo que nos é tomado à revelia. Não posso dizer que já estou me “inteirando” porque inteiro nunca mais vou estar, mas é preciso tocar o barco porque nesta engrenagem existem peças que dependem de meu bom funcionamento. Antes de passar para a parte final do Adeus, quero deixar aqui registrado uma poesia que eu fiz para o texto dramático Do Cyrano, uma adaptação do Cyrano de Bergerac de Egmond Rostand. A cada parte do Adeus, citei artistas que eu queria homenagear, por favor isto aqui não é uma auto-homenagem, não entendam assim. É que estava ha pouco relendo a peça e foi este texto que me fez voltar ao blogue para terminar o Adeus. Sem mais preâmbulos:

um feitiço.
mortal sem querer ser, fatal sem dar por isso;
uma rosa primaveril, dulcíssima cilada
onde se cultua o amor e faz uma emboscada.
quem quer que a viu sorrir, tem visto o que é perfeito.
nela tudo tem graça: o olhar, o menor jeito
em tudo ela é divina
é a rosa de pixinguinha, ao subir à concha nacarina,
é o pavão misterioso, percorrendo o bosque majestoso,
ela é tudo e só por ela tudo pode acontecer
o dia, a noite, o amor, o infinito, outro amanhecer...

Bom, na verdade o texto é de Cícero Ferreira, pseudônimo que uso para assinar meus textos dramáticos. Segue agora a última parte do Adeus:

V

No dia que estiver meu corpo sem vida, sem via,
Não chorem ou lamentem, não há escapatória,
Na minha partida, festejem à minha memória
Com fogueira, música, bebida, piada e poesia.

Porque nada meu naquele corpo inerte haverá
De mim, ali, nenhum conto, desejos, riquezas,
Nem amores, nem as alegrias, nem as tristezas,
No corpo que encontrarem, nem as feições há.

E quando o encontrarem deitado aquele corpo,
Indiferente, alheio, inerte, triste e frio, não erra.
Não escondam suas vergonhas debaixo da terra,
Melhor queimar e livrar-se das cinzas e do copo.

Tão pouco se apressem em julgar o corpo sem vida,
Pois o que fiz, o fiz, e só fiz para ver o que acontece
Quando alguém faz o que realmente nos apetece.
Já aceitamos a verdade ocultada, decido minha ida.

Um corpo é só um corpo, não sente frio nem calor,
Não tem fome, medo, nem nunca mais se sentirá só.
Ou querido ou desprezado. Não é mais que um bosó.
Não ama, nem tem saudade, tão pouco sente dor.

No corpo não terá sonhos, pesadelos ou esperança.
Sem vida é carne, ossos, nervos, tendões, músculos,
Unhas, cabelo, dentes e nada mais. Sem osbstáculos
A vida vai seguir seu rumo mesmo sem sua herança.

Observe. Agora terminou o inverno e, do fundo,
Veio a primavera, e haverá depois verão. E logo,
Logo, as cinzas daquele corpo e este monólogo
Serão poeira em uma parte qualquer do mundo.

Nem lagartas nem borboletas ou urubus ou beija-flores
Ou homens ou mulheres saberão que um corpo habitei.
Que marés vos conduzam para brandas enseadas, quietei.
Bom, cumprida a jornada, recolho-me aos bastidores.

Pensem que tudo o que eu tinha para amar, amei.
E meu espirito ninguém conseguirá dobrar.
A vida dura o tempo de seu propósito,
Este aí, é tudo o que nos pertence.
Se despeçam sem mágoa,
Se isso for possível,
Só não escondam,
O sem vida,
Debaixo do

Chão.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

SOLSTÍCIO

amálgama

ela me acordou esta manhã.
como sempre insensível, distante e fria,
seu hálito, seu beijo e suas novas, queria,
fossem quente, suave e alegre afã.

a mágoa que deixas, deixa rastro
em todo vivo que se faz apartado,
mesmo vivo está morto, subjugado, atado.
tu? entre pêsames, desfila seu sorriso sinistro.

amarga e vicia na dor este peito gasto,
mas não me arrasto para sua cova
porque me conforto nesta trova,
mas ainda devoras todo amor casto.

deixa estar, danada,
corresponderei ao teu inebriante beijo
com sensualidade sabor goiabada com queijo
então se sentirá amada, afortunada.

por hora, pode partir,
mas saiba funesta criatura
que levas o corpo, sua imatura,
pois a alma vai na vida coexistir.

Esta madrugada uma queridíssima amiga perdeu (?) sua sobrinha Patrícia, e eu que não domino a palavra falada, embora o coração grite a todo instante, escrevi “amálgama” e lhe enviei. Quando a reencontrar, falaremos de nossas dores e de se reconciliar a vida, enquanto está guardada a parte V do adeus. Fui no porto hoje e estava tudo tão melancólico, eu, ele, o mar. Tinha uma música qualquer que queria soar tristeza com a certeza que ali estava a fronteira. Pedi licença, entrei no mar, mas não me senti em casa, sem pertencimento nada ali era meu, nem eu. Saí dali escrevendo meus passos na areia. Saí dali como quem nasce. Saí dali fugindo de um silencio para o outro. Saí dali sem alguém.


Solstício de inverno

Dezembro já nem existia
janeiro foi pequena fada
e fevereiro me reservava
beijos que já não queria.

Verão virou outono
num março de guerrilha
fez-se da corda, forquilha,
outro beijo, inferno uníssono.

Abriu fechou-se em mim
esperança, esse amor.
em suas curvas vi esplendor
da flor do jasmim.

Desponta maio, graciosa,
ainda sou pequeno curumim,
infantil, a usar cocar de capim
refém de sorte contenciosa.

Que junho traga rigoroso inverno
e sua longa noite do solstício,
imerso nestas trevas esteja o início,
o meio, o fim, estagnando o eterno.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Adeus - 4 de 5

Bom, embora o estado de espírito tenha evoluído pouco nestes dias de inatividade e ainda arda em meu peito as brasas dessa dor aguda, a sinto sem desespero. Esta longa noite sem lua, me parece, demorará ainda mais um pouco comigo porque sou a solidão que preciso, por hora. Nesta madrugada de 21 para 22 de abril faz aniversário a morte de Mainha. Tanto que escrevi, hoje mófo a horas frente a uma página em branco, portanto recorri aos poemas de minha vida, naquela tentativa de traduzir-me. Começo então por Tabacaria (Álvaro de Campos), “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”; Cântico Negro (José Régio) “Mas eu, que nem principio nem acabo, / Nasci do amor que há entre Deus e Diabo”; Poema Negro (Augusto dos Anjos) “É a Morte – esta carnívora assanhada - / Serpente má de língua envenenada / Que tudo que acha no caminho, come...”; Nudez (Drummond) “nem era amor aquilo que se amava, / nem era dor aquilo que doía; / ou dói, agora, que já se foi? / que dor se sabe dor, e não se extingue? ” Retrato (Cecília Meireles) “- Em que espelho ficou perdida a minha face? ”.

Existe um poema em prosa, arrebatador, chamado O Livros dos Prazeres (Clarice Lispector) que dispensa apresentações, eis um trecho para apreciação:

“Lóri ligou o número de telefone:
- Não poderei ir, Ulisses, que não estou bem.
Houve uma pausa. Ele afinal perguntou:
- É fisicamente que você não está bem?
Ela respondeu que não tinha nada físico. Então ele disse:
- Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso. ”

Sem mais delongas,


IV (despedida inesangustia)

Adeus meus companheiros
qu’eu já vou-me embora
uma hora para cada passo,
ninguém nunca saberá o
encaminhar de agora, jamais.
E a mala que arrumo
não leva nada,
não quer deixar,
não quer levar.
e daquilo que leva
e daquilo que deixa
tudo se guarda
num lugar de não sei onde,
como coração de mãe que tudo cabe
que nada toma, que nada nega
e sempre ama e sempre perdoa.
Adeus meus companheiros,
meu alforje vazio, traz só o tempo,
cheio de lembranças dos meninos
raul, joão, malu e hannah,
pequeninos sempre.
Meu alforje ainda chora por
minha mãe e meu pai
que nada neste mundo será equivalente.
daquilo que não se esquece
daquilo impossível de não amar
daquilo que vibra a alma e estremece o corpo.
Adeus meus companheiros,
não sofram com esta despedida,
não me esperem tão cedo
que o mundo é vasto
e o universo ainda de expande.
adeus, meus companheiros,
que a vida é apenas a fagulha da existência
e os amores serão sempre amáveis
assim como a distância será
sempre a estrada para nos reencontrarmos.
Adeus.

quarta-feira, 30 de março de 2016

INTERTÍCIO

“Mas a vida é real e de viés. ” Nunca fui o otimismo em pessoa, mas sempre brotou de mim amor em demasia. Por hora, uma estiagem racha o solo, já seco, em meu peito. Tornando raro em mim o sangue oxigenado, pulsante, para alimentar as minhas células. Hoje corre em minhas veias algum tipo de liquido espesso, lento, grosso que ao se arrastar nesta malha fina causa angustia e sofrimento, sufocando ainda mais a vida que se desafia. Travada entre os dentes a amargura desta lida, sigo confiante em me dedicar ao labor com a esperança de encontrar ambiente que dilua qualquer coisa. Mas hei que me sinto ainda mais invisível diante de espelhos que não me enxergam. Que ignoram qualquer ser humano que não seja o umbigo. Ignorância letrada que chafurda no lodo da causa própria, garantias pessoais e que deitam e rolam no chiqueiro dos benefícios, fg’s, cd’s e prerrogativas abusivas (um poderzinho!), desde os mais altos escalões à ralé que se esbofeteia por migalhas de cifrões de níquel em forma de gratificações, progressões, rsc’s. Me desconheço ao reconhecer meu reflexo suíno sedento pelos mesmos farelos. Cadê o Artista que eu conheci, formei e vivi? Está enfermo em estado terminal? Preciso de uma máquina qualquer que force uma quantidade considerável de oxigênio em meus pulmões com um pouco de vida.



DE OLHOS BEM ABERTOS

com o corpo atônito, amargurado,
em agonia, assustado,
e uma erupção dentro de mim.

de olhos bem vivos, vidrados,
tristes, rendidos, mareados,
e uma erupção dentro de mim.

a alma órfã, em desespero,
cativa, sequestrada,
pregada, de voz embargada:

e uma erupção dentro de mim.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Adeus - 3 de 5

Quando eu era menino vivia querendo saber por quem Jesus Cristo estava apaixonado. Toda Semana Santa era a mesma história: A Paixão de Cristo. Aí, a gente comia as guloseimas preparadas por minha mãe, bebia-se bastante vinho numa confraternização universal, mas o nome da paixão de cristo eu não ouvia em nenhum instante. Nem ouviria, porquê paixão é um estado de martírio, ela suscita sentimentos como medo, raiva, tristeza, ciúme, discórdia e inveja, e fatalmente nos conduz à obsessão. O apaixonado sofre, deste ponto de vista, a paixão é uma doença. A filosofia tem se debruçado sobre ela desde de Platão, mas eu prefiro a sentença de Hamlet: “Dá-me o homem que não seja escravo da paixão”, ou seja, ele entregaria de bom grado seu coração ao homem que fosse senhor de suas emoções. Hamlet, é a obra prima do bardo inglês Shakespeare, que ontem, 23 de abril, é a data de seu nascimento e morte. Sou um homem do teatro, atuei, dirigi, maquiei, escrevi peças, desenhei figurinos e cenários e planos de luz, sem dúvidas, entre tantas obras que tive o deleite de apreciar, a paixão do príncipe Hamlet é a que eu quero levar comigo, não porquê tem como tema um drama de vingança, sim a paixão que consome o príncipe dinamarquês é a vingança pelo assassinato de seu pai, mas ela em si é um tratado sobre a humanidade. Ela é existencial. E o que aprendemos com sua paixão? Pobre do homem que acha que os problemas do mundo estão nos outros.


III

Meu corpo é um jardim
E a minha vontade é o jardineiro.
Talhei minha coragem no marfim,
Iluminei horizontes com ofuscante candeeiro.
Oh! Admirável mundo novo!
Cheguei sem deixar saudade.
Conheci fronteira, sentimento, arma, povo,
Mas minha melhor bagagem é a idade.
Cicatrizes serão sempre inevitáveis.
Antes amar que ser amado,
Pois todas as regras são execráveis,
Afora, o melhor amor é o amor ofertado.
            Até logo, neste instante te vejo, até breve, adeus”
            Hoje não existe porto para os sentimentos meus.


Vou realizar uma quebra no protocolo, que é publicar um texto não autoral, mas uma vez que falamos em Shakespeare, seria uma mácula não socializar tal soneto, com tradução de Ivo Barroso.:

SONETO 66

Farto de tudo, a paz da morte imploro
Para não ver no mérito um pedinte,
E o nulo se ostentando sem decoro,
E a fé mais pura em degradado acinte,
E a honra, que era de ouro, regredida,
E a virtude das virgens violada,
E a reta perfeição ser retorcida,
E a força pelo fraco subjugada,
E a prepotência amordaçando a arte,
E impondo regra o tolo doutoral,
E a verdade singela posta à parte,
E o bem cativo estar do ativo mal:
            Farto de tudo, a morte é o bom caminho,
            Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.


Por hoje é só. Sem mais delongas, um fraterno abraço.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Adeus - 2 de 5

Quem nunca leu o Discurso do Capibaripe do Cão sem Plumas de João Cabral de Melo Neto, por favor, pare o que esteja fazendo e corra para ler. Agora, você tem mais uma evidência sobre a pessoa que é esta criatura que por hora se desnuda num breve adeus. A Deus. Ao Deus dará. Porque sobrevivi a 2015, suportarei 2016. Na verdade, a gente nunca está preparado para o porvir, mas por hora, o coração gasto é o lastro desta barca desgovernada em que está a minha vida. Sem desespero, há duas formas de dores: aquela que nos fortalece e aquela inútil, que só faz doer. Há o amor. Ele pode ser a cura, mas também dói. O grande problema são as regras que criamos e as quais nos obrigamos a seguir. Temos que escolher a quem amar, segundo certo modelo, ect, ect... eis o equívoco, não é assim que funciona. A gente ama. Não escolhe a quem amar, nem até quando e o desejo, que caminha de braços dados com o amor, é outra história. Então, a partir do exposto, lembro de A Maçã, de Raul Seixas. Raul, outro baiano virado na porra, é mais um dos artistas que me nortearam neste mundo de meu Deus. Por favor, se você não conhece, ouça. O texto a seguir é inspirado nela, um adeus embebido do maluco beleza:


II

Nós e eles:
E um muro bem alto
Nos separando pra sempre,
do mundo, do mundo, do mundo...

Eu e você:
E tantos obstáculos
Teimando em dizer não,
Não, não, não...

A vida é tão leve para quem sabe sorrir.

Veja!
Este mundo é apenas
Um ensaio para o outro
Que está por vir.

Lá, talvez seja possível
Finalmente ser feliz.
Tudo o que nos afastava
Possa, então, nos unir.

A vida é tão leve para quem sabe sorrir.

Você e eu:
Amando em liberdade
Sem barreiras nem muros,
E a inteira verdade.

O amor é a lei
Da tão sonhada utopia,
Que contagia soberano:
Eles e nós.

terça-feira, 15 de março de 2016

Adeus – 1 de 5

Tomarei de assalto, como preâmbulo, texto de Antônio Torres: “A mulher é como o mar, aparentemente calmo, transparentemente revolto. Como o mar, quente em cima e frio embaixo, mas dependendo da lua pode acontecer o contrário: frio em cima, quente embaixo. Como o mar, cheio de ciclos e ondas que vêm que vão e arrastam tudo. O mar que chicoteia as rochas como a mãe da gente chicoteava as nossas costas, a mesma mãe que nos lambia de afeto como o mar lambe a areia. Ah, menina, bom mesmo era estar agora na praia, sendo lambido pelo mar e lambendo uma mulher na areia. Uma mulher de qualquer cor, qualquer tamanho, qualquer idade. Que revirasse os olhos de prazer, tresvariasse o corpo num gemido de amor como se o mundo fosse acabar no próximo minuto. Ah, menina, não há nada que valha mais que uma buceta! ” Tive meu primeiro contato com a obra de Antônio Torres através de “Essa Terra” na antiga 7ª série do primeiro grau e me encantei com as imagens que sua narrativa criava, a classe a que seus personagens pertencem é o extremo oposto de tudo o que já tinha lido até ali. Virei voraz leitor de Torres e li tudo o que ela já publicou. O texto em questão pertence a “Adeus Velho!” e eu o recitei há pouco numa reunião festiva em que a presença era em sua maioria feminina, uma vez que estamos no mês em que se comemora o dia da mulher, lembrei dele e o soltei (revendo-o agora vejo que houveram falhas de memória, e na hora, modifiquei também o final por puritanismo). Assim eu começo a me despedir, com Antônio Torres, autor baiano, do Junco (hoje Sátiro Dias) e que estudou no Ginásio de Alagoinhas, e provocou uma mudança em minha vida; ele que usou o seu universo, que é o mesmo em que cresci, para narrar suas histórias e me possibilitou começar a sonhar. Vislumbrar romper fronteiras...

ADEUS

I

- Essa terra me consome!
Hora parece dia, dia parece hora,
Interceda, minha Nossa Senhora,
Enforcado não resguarda o nome.
Quis amá-lo em meus braços,
Mas a perdiz é rápida, ligeira!
Perdi-o pro mundo, quem sabe Deus queira
Esse meu amor solto, sem laços.
- Se estiver vivo um dia ele aparece!
Mas não espero, morreu-me esperança.
O meu brinquedo de quando era criança,
Essa terra miserável esmorece.
            Preciso de só mais uma dose de cachaça,
            Um abraço, e parto em busca de outra praça.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Te peguei, desgraçado!

Há alguns dias eu desafiei: “Me faz todo o seu mau de uma vez! ”. E não parei por aí: “Destila, enfim este teu ódio/E envenena-me todo ilusório. ”. E eis que eu ainda tive a pachorra de lhe enfiar o dedo na cara: “Ou mata-me antes de nova aurora. ”. E, porque, caros leitores, estava eu embebido de tanta empáfia para proferir palavras tão desafiadoras à ela? Será que lá no âmago de meu ser eu acreditava já caminhar a estrada da salvação? Aquela que me guiaria da escuridão em que eu vivia novamente para a luz, e mesmo antes de concretizá-la, estava tão seguro de si, que impus tal desafio, certo de que estava com as cartas do triunfo na mão? Ledo engado. Porque ali se desenhava a ‘nova aurora’, “E o sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo”, Ah, Cartola! Essa alvorada onde não se chora nem há tristeza está cada vez mais distante, quando seu verdadeiro algoz sou eu mesmo meu próprio Judas com a forma mais cruel de se trair: com um beijo. Desde de então, justo o contrário, instaurou-se novo crepúsculo. Desolado, escuto a todo instante: “Te peguei, desgraçado! ”
“Te peguei desgraçado! ” e o vaco. Um rombo descomunal no corpo, na alma, na vida. Me resta uma “súplica cearense”, oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração.  Eu te ofendi com o meu desejo e errei ao te desafiar, mas arrependido e prostrado de joelho rogo tamanha prontidão ao meu pedido de perdão, vida, como foste rápida ao responderes ao meu desafio. Meu destino é teu, o tempo é teu, dias e noites são teus. Ainda que me atire às trevas, por favor vida, não me negue as estrelas.


TE PEGUEI DESGRAÇADO!

Veja as coisas como são:
Um minuto põem fim,
Nos anos de uma reputação.
Já disse, eu nunca quis assim,
Meu querer não é vagabundo,
Mas carrego agora as dores do mundo
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

Por mais que pense, medito
Como diz o ditado antigo
Não há nada mais a ser dito
Porque todo crime merece castigo.
Castigue então, declare sua desavença,
Impunha, grite-me esta sentença,
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

Errar é humano, não é humano
Permanecer no erro,
Não me julgue um carcamano
Tampouco um coração de ferro.
Meus nervos não são de aço,
Oh! Vida, necessito seu regaço,
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

quinta-feira, 10 de março de 2016

MEDIDA POR MEDIDA

Tenho estado em constantes metamorfoses ao longo destes últimos meses. Namoro a embriaguez para suportar ou ao menos aliviar a dor que me consome. Estar sóbrio é estar triste, entorpeço. Há poucos dias de completar um ano, repasso os fatos tentando entender o inentendível... é só a vida que passa, nos engolindo com sua totalidade imensurável. Dada as características das dores particulares. Dores alheias seriam mais profundas que as minhas? Apois, ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’, canta Caetano. Temos sentimentos e eles são particulares, compartilhados, universais. Carrego no peito mais amor que meu coração suporta amar, e amo, amei, amarei sempre da forma mais intensa, porém elementar, que os meus braços alcançam abraçar. Sinto falta da minha mãe, sinto falta dos meus filhos, sinto falta de mim. É possível partilharmos com outras o mesmo sentimento, mas ainda assim, temos nossa perspectiva, dimensão, profundidade. Das dores nos fortalecemos. São, talvez, o que nos torna demasiadamente humanos porque elas denunciam nossa fragilidade e nos expõem. Por esta trilha espinhosa e pedregosa arrastamos nossa cruz e por hora, é tudo o que eu entendo por vida:


MEDIDA POR MEDIDA

Me faz todo o seu mau de vez!
Por favor, não meça esforço,
Esta dor aguda mereço, torço,
Não findará aqui minha vivez.
Pese na mão, seja mais cruel.
Destila, enfim, este teu ódio
E envenena-me todo o ilusório,
A estas dores é fácil ser fiel.
Ou antes de nova aurora me mata.
Este artista decadente implora,
Minha estéril primavera, não flora.
Assassina-me sem delongas, Beata!
         Conta-me seus segredos mais sórdidos, oh vida,
         E então te amarei na morte, ainda mais, querida.