quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Adeus - parte 5 de 5

Quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Boa tarde caros amigos,

Em 05 de setembro de 2016, uma segunda-feira, completei 43 anos. Não fora um dia festivo. Na madrugada do domingo, 04, pra segunda-feira, 05, faleceu uma pessoa muito querida, o ‘Ti Jonas” da minha ex-esposa Adriana. Eu o chamava de “fogueteiro” porque no São João, lá no Guigó, ele fazia a alegria da galera soltando os rojões. Era a alegria em pessoa. Então... dessas coisas que nos põe a ruminar, ou seja, pensar profundamente. Metamorfoses são necessárias. Neste longo período ainda não encontrei chão para me firmar, mas sigo respondendo às demandas que a vida nos passa, por isso estou de mudança para a cidade de Vitória da Conquista para ficar próximo dos meus filhos. Também pra tomar um prumo, este prumo que nos é tomado à revelia. Não posso dizer que já estou me “inteirando” porque inteiro nunca mais vou estar, mas é preciso tocar o barco porque nesta engrenagem existem peças que dependem de meu bom funcionamento. Antes de passar para a parte final do Adeus, quero deixar aqui registrado uma poesia que eu fiz para o texto dramático Do Cyrano, uma adaptação do Cyrano de Bergerac de Egmond Rostand. A cada parte do Adeus, citei artistas que eu queria homenagear, por favor isto aqui não é uma auto-homenagem, não entendam assim. É que estava ha pouco relendo a peça e foi este texto que me fez voltar ao blogue para terminar o Adeus. Sem mais preâmbulos:

um feitiço.
mortal sem querer ser, fatal sem dar por isso;
uma rosa primaveril, dulcíssima cilada
onde se cultua o amor e faz uma emboscada.
quem quer que a viu sorrir, tem visto o que é perfeito.
nela tudo tem graça: o olhar, o menor jeito
em tudo ela é divina
é a rosa de pixinguinha, ao subir à concha nacarina,
é o pavão misterioso, percorrendo o bosque majestoso,
ela é tudo e só por ela tudo pode acontecer
o dia, a noite, o amor, o infinito, outro amanhecer...

Bom, na verdade o texto é de Cícero Ferreira, pseudônimo que uso para assinar meus textos dramáticos. Segue agora a última parte do Adeus:

V

No dia que estiver meu corpo sem vida, sem via,
Não chorem ou lamentem, não há escapatória,
Na minha partida, festejem à minha memória
Com fogueira, música, bebida, piada e poesia.

Porque nada meu naquele corpo inerte haverá
De mim, ali, nenhum conto, desejos, riquezas,
Nem amores, nem as alegrias, nem as tristezas,
No corpo que encontrarem, nem as feições há.

E quando o encontrarem deitado aquele corpo,
Indiferente, alheio, inerte, triste e frio, não erra.
Não escondam suas vergonhas debaixo da terra,
Melhor queimar e livrar-se das cinzas e do copo.

Tão pouco se apressem em julgar o corpo sem vida,
Pois o que fiz, o fiz, e só fiz para ver o que acontece
Quando alguém faz o que realmente nos apetece.
Já aceitamos a verdade ocultada, decido minha ida.

Um corpo é só um corpo, não sente frio nem calor,
Não tem fome, medo, nem nunca mais se sentirá só.
Ou querido ou desprezado. Não é mais que um bosó.
Não ama, nem tem saudade, tão pouco sente dor.

No corpo não terá sonhos, pesadelos ou esperança.
Sem vida é carne, ossos, nervos, tendões, músculos,
Unhas, cabelo, dentes e nada mais. Sem osbstáculos
A vida vai seguir seu rumo mesmo sem sua herança.

Observe. Agora terminou o inverno e, do fundo,
Veio a primavera, e haverá depois verão. E logo,
Logo, as cinzas daquele corpo e este monólogo
Serão poeira em uma parte qualquer do mundo.

Nem lagartas nem borboletas ou urubus ou beija-flores
Ou homens ou mulheres saberão que um corpo habitei.
Que marés vos conduzam para brandas enseadas, quietei.
Bom, cumprida a jornada, recolho-me aos bastidores.

Pensem que tudo o que eu tinha para amar, amei.
E meu espirito ninguém conseguirá dobrar.
A vida dura o tempo de seu propósito,
Este aí, é tudo o que nos pertence.
Se despeçam sem mágoa,
Se isso for possível,
Só não escondam,
O sem vida,
Debaixo do

Chão.