Há alguns dias eu
desafiei: “Me faz todo o seu mau de uma vez! ”. E não parei por aí: “Destila,
enfim este teu ódio/E envenena-me todo ilusório. ”. E eis que eu ainda tive a
pachorra de lhe enfiar o dedo na cara: “Ou mata-me antes de nova aurora. ”. E,
porque, caros leitores, estava eu embebido de tanta empáfia para proferir
palavras tão desafiadoras à ela? Será que lá no âmago de meu ser eu acreditava
já caminhar a estrada da salvação? Aquela que me guiaria da escuridão em que eu
vivia novamente para a luz, e mesmo antes de concretizá-la, estava tão seguro
de si, que impus tal desafio, certo de que estava com as cartas do triunfo na
mão? Ledo engado. Porque ali se desenhava a ‘nova aurora’, “E o sol colorindo,
é tão lindo, é tão lindo”, Ah, Cartola! Essa alvorada onde não se chora nem há
tristeza está cada vez mais distante, quando seu verdadeiro algoz sou eu mesmo
meu próprio Judas com a forma mais cruel de se trair: com um beijo. Desde de
então, justo o contrário, instaurou-se novo crepúsculo. Desolado, escuto a todo
instante: “Te peguei, desgraçado! ”
“Te peguei desgraçado! ”
e o vaco. Um rombo descomunal no corpo, na alma, na vida. Me resta uma “súplica
cearense”, oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, eu acho que a
culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração. Eu te ofendi com o meu desejo e errei ao te
desafiar, mas arrependido e prostrado de joelho rogo tamanha prontidão ao meu
pedido de perdão, vida, como foste rápida ao responderes ao meu desafio. Meu
destino é teu, o tempo é teu, dias e noites são teus. Ainda que me atire às
trevas, por favor vida, não me negue as estrelas.
TE PEGUEI DESGRAÇADO!
Veja as coisas como são:
Um minuto põem fim,
Nos anos de uma reputação.
Já disse, eu nunca quis assim,
Meu querer não é vagabundo,
Mas carrego agora as
dores do mundo
Porque, depois d’aquele
beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.
Por mais que pense,
medito
Como diz o ditado antigo
Não há nada mais a ser
dito
Porque todo crime merece
castigo.
Castigue então, declare sua
desavença,
Impunha, grite-me esta
sentença,
Porque, depois d’aquele
beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.
Errar é humano, não é
humano
Permanecer no erro,
Não me julgue um
carcamano
Tampouco um coração de
ferro.
Meus nervos não são de
aço,
Oh! Vida, necessito seu
regaço,
Porque, depois d’aquele
beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.
Olá, meu caro. Mais uma belíssima e intrigante obra literária, aliás uma das coisas que mais me toca na poesia é, certamente, o colocar-me no lugar do poeta, é o afã de interpretar/descobrir sua alma nos momentos de inspiração. A arte me toca muito quando "viajo" no momento de inspiração dos seus realizadores. Vá em frente, os mais intensos sentimentos (sejam eles quais sejam) mexem e desarrumam o artista que em contraponto movem-no até os momentos de inspiração mais avassaladores e produtivos e quem ganha é a arte e os seus deleitantes apreciadores. Abraço grande.
ResponderExcluirNando, você é o melhor leitor, rsrsrs, espero poder estar logo contigo para possamos falar destas dores e outras histórias. Um abraço fraterno.
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