segunda-feira, 14 de março de 2016

Te peguei, desgraçado!

Há alguns dias eu desafiei: “Me faz todo o seu mau de uma vez! ”. E não parei por aí: “Destila, enfim este teu ódio/E envenena-me todo ilusório. ”. E eis que eu ainda tive a pachorra de lhe enfiar o dedo na cara: “Ou mata-me antes de nova aurora. ”. E, porque, caros leitores, estava eu embebido de tanta empáfia para proferir palavras tão desafiadoras à ela? Será que lá no âmago de meu ser eu acreditava já caminhar a estrada da salvação? Aquela que me guiaria da escuridão em que eu vivia novamente para a luz, e mesmo antes de concretizá-la, estava tão seguro de si, que impus tal desafio, certo de que estava com as cartas do triunfo na mão? Ledo engado. Porque ali se desenhava a ‘nova aurora’, “E o sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo”, Ah, Cartola! Essa alvorada onde não se chora nem há tristeza está cada vez mais distante, quando seu verdadeiro algoz sou eu mesmo meu próprio Judas com a forma mais cruel de se trair: com um beijo. Desde de então, justo o contrário, instaurou-se novo crepúsculo. Desolado, escuto a todo instante: “Te peguei, desgraçado! ”
“Te peguei desgraçado! ” e o vaco. Um rombo descomunal no corpo, na alma, na vida. Me resta uma “súplica cearense”, oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração.  Eu te ofendi com o meu desejo e errei ao te desafiar, mas arrependido e prostrado de joelho rogo tamanha prontidão ao meu pedido de perdão, vida, como foste rápida ao responderes ao meu desafio. Meu destino é teu, o tempo é teu, dias e noites são teus. Ainda que me atire às trevas, por favor vida, não me negue as estrelas.


TE PEGUEI DESGRAÇADO!

Veja as coisas como são:
Um minuto põem fim,
Nos anos de uma reputação.
Já disse, eu nunca quis assim,
Meu querer não é vagabundo,
Mas carrego agora as dores do mundo
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

Por mais que pense, medito
Como diz o ditado antigo
Não há nada mais a ser dito
Porque todo crime merece castigo.
Castigue então, declare sua desavença,
Impunha, grite-me esta sentença,
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

Errar é humano, não é humano
Permanecer no erro,
Não me julgue um carcamano
Tampouco um coração de ferro.
Meus nervos não são de aço,
Oh! Vida, necessito seu regaço,
Porque, depois d’aquele beijo
Tudo que sinto é aleijo
No fundo do coração.

2 comentários:

  1. Olá, meu caro. Mais uma belíssima e intrigante obra literária, aliás uma das coisas que mais me toca na poesia é, certamente, o colocar-me no lugar do poeta, é o afã de interpretar/descobrir sua alma nos momentos de inspiração. A arte me toca muito quando "viajo" no momento de inspiração dos seus realizadores. Vá em frente, os mais intensos sentimentos (sejam eles quais sejam) mexem e desarrumam o artista que em contraponto movem-no até os momentos de inspiração mais avassaladores e produtivos e quem ganha é a arte e os seus deleitantes apreciadores. Abraço grande.

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  2. Nando, você é o melhor leitor, rsrsrs, espero poder estar logo contigo para possamos falar destas dores e outras histórias. Um abraço fraterno.

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