Quando eu era menino
vivia querendo saber por quem Jesus Cristo estava apaixonado. Toda Semana Santa
era a mesma história: A Paixão de Cristo. Aí, a gente comia as guloseimas
preparadas por minha mãe, bebia-se bastante vinho numa confraternização
universal, mas o nome da paixão de cristo eu não ouvia em nenhum instante. Nem ouviria, porquê paixão é um estado de martírio, ela suscita sentimentos como medo,
raiva, tristeza, ciúme, discórdia e inveja, e fatalmente nos conduz à obsessão.
O apaixonado sofre, deste ponto de vista, a paixão é uma doença. A filosofia
tem se debruçado sobre ela desde de Platão, mas eu prefiro a sentença de
Hamlet: “Dá-me o homem que não seja
escravo da paixão”, ou seja, ele entregaria de bom grado seu coração ao
homem que fosse senhor de suas emoções. Hamlet,
é a obra prima do bardo inglês Shakespeare, que ontem, 23 de abril, é a data de
seu nascimento e morte. Sou um homem do teatro, atuei, dirigi, maquiei, escrevi
peças, desenhei figurinos e cenários e planos de luz, sem dúvidas, entre tantas
obras que tive o deleite de apreciar, a paixão do príncipe Hamlet é a que eu
quero levar comigo, não porquê tem como tema um drama de vingança, sim a paixão
que consome o príncipe dinamarquês é a vingança pelo assassinato de seu pai,
mas ela em si é um tratado sobre a humanidade. Ela é existencial. E o que
aprendemos com sua paixão? Pobre do homem que acha que os problemas do mundo
estão nos outros.
III
Meu corpo é um
jardim
E a minha vontade
é o jardineiro.
Talhei minha
coragem no marfim,
Iluminei horizontes
com ofuscante candeeiro.
Oh! Admirável mundo
novo!
Cheguei sem deixar
saudade.
Conheci fronteira,
sentimento, arma, povo,
Mas minha melhor
bagagem é a idade.
Cicatrizes serão sempre
inevitáveis.
Antes amar que ser
amado,
Pois todas as
regras são execráveis,
Afora, o melhor
amor é o amor ofertado.
Até logo, neste instante te vejo, até
breve, adeus”
Hoje não existe porto para os sentimentos
meus.
Vou realizar uma
quebra no protocolo, que é publicar um texto não autoral, mas uma vez que
falamos em Shakespeare, seria uma mácula não socializar tal soneto, com tradução de Ivo Barroso.:
SONETO 66
Farto de tudo, a
paz da morte imploro
Para não ver no
mérito um pedinte,
E o nulo se
ostentando sem decoro,
E a fé mais pura
em degradado acinte,
E a honra, que era
de ouro, regredida,
E a virtude das
virgens violada,
E a reta perfeição
ser retorcida,
E a força pelo
fraco subjugada,
E a prepotência amordaçando
a arte,
E impondo regra o
tolo doutoral,
E a verdade
singela posta à parte,
E o bem cativo
estar do ativo mal:
Farto de tudo, a morte é o bom
caminho,
Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.
Por hoje é só. Sem
mais delongas, um fraterno abraço.
É, meu amigo, a poesia sempre fustigante e misteriosa busca nos puxar para o emaranhado de sentimentos e sensações que nos provoca a descobrir de onde viera a inspiração do seu "obreiro". Penso agora estar um pouco mais perto do que me parece inspiração. Mas a totalidade da compreensão é impossível. E indesejável, até. E assim nos entregamos ao deleite da sua leitura e absorção sentimental. Cada um no seu mundo, o que nos faz apreciá-la por focos diferentes. E é isso que a torna bela e ainda mais sedutora. Abraço fraterno!
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