Tomarei
de assalto, como preâmbulo, texto de Antônio Torres: “A mulher é como o mar,
aparentemente calmo, transparentemente revolto. Como o mar, quente em cima e
frio embaixo, mas dependendo da lua pode acontecer o contrário: frio em cima,
quente embaixo. Como o mar, cheio de ciclos e ondas que vêm que vão e arrastam
tudo. O mar que chicoteia as rochas como a mãe da gente chicoteava as nossas
costas, a mesma mãe que nos lambia de afeto como o mar lambe a areia. Ah,
menina, bom mesmo era estar agora na praia, sendo lambido pelo mar e lambendo
uma mulher na areia. Uma mulher de qualquer cor, qualquer tamanho, qualquer idade.
Que revirasse os olhos de prazer, tresvariasse o corpo num gemido de amor como
se o mundo fosse acabar no próximo minuto. Ah, menina, não há nada que valha
mais que uma buceta! ” Tive meu primeiro contato com a obra de Antônio Torres através
de “Essa Terra” na antiga 7ª série do primeiro grau e me encantei com as
imagens que sua narrativa criava, a classe a que seus personagens pertencem é o
extremo oposto de tudo o que já tinha lido até ali. Virei voraz leitor de
Torres e li tudo o que ela já publicou. O texto em questão pertence a “Adeus
Velho!” e eu o recitei há pouco numa reunião festiva em que a presença era em
sua maioria feminina, uma vez que estamos no mês em que se comemora o dia da
mulher, lembrei dele e o soltei (revendo-o agora vejo que houveram falhas de
memória, e na hora, modifiquei também o final por puritanismo). Assim eu começo
a me despedir, com Antônio Torres, autor baiano, do Junco (hoje Sátiro Dias) e que
estudou no Ginásio de Alagoinhas, e provocou uma mudança em minha vida; ele que
usou o seu universo, que é o mesmo em que cresci, para narrar suas histórias e me
possibilitou começar a sonhar. Vislumbrar romper fronteiras...
ADEUS
I
- Essa terra me
consome!
Hora parece dia,
dia parece hora,
Interceda, minha
Nossa Senhora,
Enforcado não
resguarda o nome.
Quis amá-lo em
meus braços,
Mas a perdiz é
rápida, ligeira!
Perdi-o pro mundo,
quem sabe Deus queira
Esse meu amor
solto, sem laços.
- Se estiver vivo
um dia ele aparece!
Mas não espero,
morreu-me esperança.
O meu brinquedo de
quando era criança,
Essa terra
miserável esmorece.
Preciso de só mais uma dose de
cachaça,
Um abraço, e parto em busca de outra
praça.
Nenhum comentário:
Postar um comentário