terça-feira, 15 de março de 2016

Adeus – 1 de 5

Tomarei de assalto, como preâmbulo, texto de Antônio Torres: “A mulher é como o mar, aparentemente calmo, transparentemente revolto. Como o mar, quente em cima e frio embaixo, mas dependendo da lua pode acontecer o contrário: frio em cima, quente embaixo. Como o mar, cheio de ciclos e ondas que vêm que vão e arrastam tudo. O mar que chicoteia as rochas como a mãe da gente chicoteava as nossas costas, a mesma mãe que nos lambia de afeto como o mar lambe a areia. Ah, menina, bom mesmo era estar agora na praia, sendo lambido pelo mar e lambendo uma mulher na areia. Uma mulher de qualquer cor, qualquer tamanho, qualquer idade. Que revirasse os olhos de prazer, tresvariasse o corpo num gemido de amor como se o mundo fosse acabar no próximo minuto. Ah, menina, não há nada que valha mais que uma buceta! ” Tive meu primeiro contato com a obra de Antônio Torres através de “Essa Terra” na antiga 7ª série do primeiro grau e me encantei com as imagens que sua narrativa criava, a classe a que seus personagens pertencem é o extremo oposto de tudo o que já tinha lido até ali. Virei voraz leitor de Torres e li tudo o que ela já publicou. O texto em questão pertence a “Adeus Velho!” e eu o recitei há pouco numa reunião festiva em que a presença era em sua maioria feminina, uma vez que estamos no mês em que se comemora o dia da mulher, lembrei dele e o soltei (revendo-o agora vejo que houveram falhas de memória, e na hora, modifiquei também o final por puritanismo). Assim eu começo a me despedir, com Antônio Torres, autor baiano, do Junco (hoje Sátiro Dias) e que estudou no Ginásio de Alagoinhas, e provocou uma mudança em minha vida; ele que usou o seu universo, que é o mesmo em que cresci, para narrar suas histórias e me possibilitou começar a sonhar. Vislumbrar romper fronteiras...

ADEUS

I

- Essa terra me consome!
Hora parece dia, dia parece hora,
Interceda, minha Nossa Senhora,
Enforcado não resguarda o nome.
Quis amá-lo em meus braços,
Mas a perdiz é rápida, ligeira!
Perdi-o pro mundo, quem sabe Deus queira
Esse meu amor solto, sem laços.
- Se estiver vivo um dia ele aparece!
Mas não espero, morreu-me esperança.
O meu brinquedo de quando era criança,
Essa terra miserável esmorece.
            Preciso de só mais uma dose de cachaça,
            Um abraço, e parto em busca de outra praça.

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