quinta-feira, 28 de abril de 2016

SOLSTÍCIO

amálgama

ela me acordou esta manhã.
como sempre insensível, distante e fria,
seu hálito, seu beijo e suas novas, queria,
fossem quente, suave e alegre afã.

a mágoa que deixas, deixa rastro
em todo vivo que se faz apartado,
mesmo vivo está morto, subjugado, atado.
tu? entre pêsames, desfila seu sorriso sinistro.

amarga e vicia na dor este peito gasto,
mas não me arrasto para sua cova
porque me conforto nesta trova,
mas ainda devoras todo amor casto.

deixa estar, danada,
corresponderei ao teu inebriante beijo
com sensualidade sabor goiabada com queijo
então se sentirá amada, afortunada.

por hora, pode partir,
mas saiba funesta criatura
que levas o corpo, sua imatura,
pois a alma vai na vida coexistir.

Esta madrugada uma queridíssima amiga perdeu (?) sua sobrinha Patrícia, e eu que não domino a palavra falada, embora o coração grite a todo instante, escrevi “amálgama” e lhe enviei. Quando a reencontrar, falaremos de nossas dores e de se reconciliar a vida, enquanto está guardada a parte V do adeus. Fui no porto hoje e estava tudo tão melancólico, eu, ele, o mar. Tinha uma música qualquer que queria soar tristeza com a certeza que ali estava a fronteira. Pedi licença, entrei no mar, mas não me senti em casa, sem pertencimento nada ali era meu, nem eu. Saí dali escrevendo meus passos na areia. Saí dali como quem nasce. Saí dali fugindo de um silencio para o outro. Saí dali sem alguém.


Solstício de inverno

Dezembro já nem existia
janeiro foi pequena fada
e fevereiro me reservava
beijos que já não queria.

Verão virou outono
num março de guerrilha
fez-se da corda, forquilha,
outro beijo, inferno uníssono.

Abriu fechou-se em mim
esperança, esse amor.
em suas curvas vi esplendor
da flor do jasmim.

Desponta maio, graciosa,
ainda sou pequeno curumim,
infantil, a usar cocar de capim
refém de sorte contenciosa.

Que junho traga rigoroso inverno
e sua longa noite do solstício,
imerso nestas trevas esteja o início,
o meio, o fim, estagnando o eterno.

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