quinta-feira, 21 de abril de 2016

Adeus - 4 de 5

Bom, embora o estado de espírito tenha evoluído pouco nestes dias de inatividade e ainda arda em meu peito as brasas dessa dor aguda, a sinto sem desespero. Esta longa noite sem lua, me parece, demorará ainda mais um pouco comigo porque sou a solidão que preciso, por hora. Nesta madrugada de 21 para 22 de abril faz aniversário a morte de Mainha. Tanto que escrevi, hoje mófo a horas frente a uma página em branco, portanto recorri aos poemas de minha vida, naquela tentativa de traduzir-me. Começo então por Tabacaria (Álvaro de Campos), “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”; Cântico Negro (José Régio) “Mas eu, que nem principio nem acabo, / Nasci do amor que há entre Deus e Diabo”; Poema Negro (Augusto dos Anjos) “É a Morte – esta carnívora assanhada - / Serpente má de língua envenenada / Que tudo que acha no caminho, come...”; Nudez (Drummond) “nem era amor aquilo que se amava, / nem era dor aquilo que doía; / ou dói, agora, que já se foi? / que dor se sabe dor, e não se extingue? ” Retrato (Cecília Meireles) “- Em que espelho ficou perdida a minha face? ”.

Existe um poema em prosa, arrebatador, chamado O Livros dos Prazeres (Clarice Lispector) que dispensa apresentações, eis um trecho para apreciação:

“Lóri ligou o número de telefone:
- Não poderei ir, Ulisses, que não estou bem.
Houve uma pausa. Ele afinal perguntou:
- É fisicamente que você não está bem?
Ela respondeu que não tinha nada físico. Então ele disse:
- Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso. ”

Sem mais delongas,


IV (despedida inesangustia)

Adeus meus companheiros
qu’eu já vou-me embora
uma hora para cada passo,
ninguém nunca saberá o
encaminhar de agora, jamais.
E a mala que arrumo
não leva nada,
não quer deixar,
não quer levar.
e daquilo que leva
e daquilo que deixa
tudo se guarda
num lugar de não sei onde,
como coração de mãe que tudo cabe
que nada toma, que nada nega
e sempre ama e sempre perdoa.
Adeus meus companheiros,
meu alforje vazio, traz só o tempo,
cheio de lembranças dos meninos
raul, joão, malu e hannah,
pequeninos sempre.
Meu alforje ainda chora por
minha mãe e meu pai
que nada neste mundo será equivalente.
daquilo que não se esquece
daquilo impossível de não amar
daquilo que vibra a alma e estremece o corpo.
Adeus meus companheiros,
não sofram com esta despedida,
não me esperem tão cedo
que o mundo é vasto
e o universo ainda de expande.
adeus, meus companheiros,
que a vida é apenas a fagulha da existência
e os amores serão sempre amáveis
assim como a distância será
sempre a estrada para nos reencontrarmos.
Adeus.

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