Bom, embora o estado de
espírito tenha evoluído pouco nestes dias de inatividade e ainda arda em meu peito
as brasas dessa dor aguda, a sinto sem desespero. Esta longa noite sem lua, me
parece, demorará ainda mais um pouco comigo porque sou a solidão que preciso,
por hora. Nesta madrugada de 21 para 22 de abril faz aniversário a morte de Mainha.
Tanto que escrevi, hoje mófo a horas frente a uma página em branco, portanto
recorri aos poemas de minha vida, naquela tentativa de traduzir-me. Começo
então por Tabacaria (Álvaro de
Campos), “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte
isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”; Cântico Negro (José Régio) “Mas eu, que nem principio nem acabo, / Nasci
do amor que há entre Deus e Diabo”; Poema
Negro (Augusto dos Anjos) “É a Morte – esta carnívora assanhada - /
Serpente má de língua envenenada / Que tudo que acha no caminho, come...”; Nudez (Drummond) “nem era amor aquilo
que se amava, / nem era dor aquilo que doía; / ou dói, agora, que já se foi? /
que dor se sabe dor, e não se extingue? ” Retrato
(Cecília Meireles) “- Em que espelho ficou perdida a minha face? ”.
Existe um poema em prosa, arrebatador, chamado O Livros dos Prazeres (Clarice
Lispector) que dispensa apresentações, eis um trecho para apreciação:
“Lóri
ligou o número de telefone:
-
Não poderei ir, Ulisses, que não estou bem.
Houve
uma pausa. Ele afinal perguntou:
-
É fisicamente que você não está bem?
Ela
respondeu que não tinha nada físico. Então ele disse:
-
Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri:
uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve
comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas
vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me
deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi
apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um
táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que sequer é bonito, mas é o
corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal
que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso. ”
Sem mais delongas,
IV (despedida
inesangustia)
Adeus meus
companheiros
qu’eu já vou-me
embora
uma hora para cada
passo,
ninguém nunca
saberá o
encaminhar de
agora, jamais.
E a mala que
arrumo
não leva nada,
não quer deixar,
não quer levar.
e daquilo que leva
e daquilo que
deixa
tudo se guarda
num lugar de não
sei onde,
como coração de
mãe que tudo cabe
que nada toma, que
nada nega
e sempre ama e
sempre perdoa.
Adeus meus companheiros,
meu alforje vazio,
traz só o tempo,
cheio de
lembranças dos meninos
raul, joão, malu e
hannah,
pequeninos sempre.
Meu alforje ainda
chora por
minha mãe e meu
pai
que nada neste
mundo será equivalente.
daquilo que não se
esquece
daquilo impossível
de não amar
daquilo que vibra
a alma e estremece o corpo.
Adeus meus
companheiros,
não sofram com
esta despedida,
não me esperem tão
cedo
que o mundo é
vasto
e o universo ainda
de expande.
adeus, meus
companheiros,
que a vida é
apenas a fagulha da existência
e os amores serão
sempre amáveis
assim como a distância
será
sempre a estrada
para nos reencontrarmos.
Adeus.
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