quinta-feira, 24 de março de 2016

Adeus - 3 de 5

Quando eu era menino vivia querendo saber por quem Jesus Cristo estava apaixonado. Toda Semana Santa era a mesma história: A Paixão de Cristo. Aí, a gente comia as guloseimas preparadas por minha mãe, bebia-se bastante vinho numa confraternização universal, mas o nome da paixão de cristo eu não ouvia em nenhum instante. Nem ouviria, porquê paixão é um estado de martírio, ela suscita sentimentos como medo, raiva, tristeza, ciúme, discórdia e inveja, e fatalmente nos conduz à obsessão. O apaixonado sofre, deste ponto de vista, a paixão é uma doença. A filosofia tem se debruçado sobre ela desde de Platão, mas eu prefiro a sentença de Hamlet: “Dá-me o homem que não seja escravo da paixão”, ou seja, ele entregaria de bom grado seu coração ao homem que fosse senhor de suas emoções. Hamlet, é a obra prima do bardo inglês Shakespeare, que ontem, 23 de abril, é a data de seu nascimento e morte. Sou um homem do teatro, atuei, dirigi, maquiei, escrevi peças, desenhei figurinos e cenários e planos de luz, sem dúvidas, entre tantas obras que tive o deleite de apreciar, a paixão do príncipe Hamlet é a que eu quero levar comigo, não porquê tem como tema um drama de vingança, sim a paixão que consome o príncipe dinamarquês é a vingança pelo assassinato de seu pai, mas ela em si é um tratado sobre a humanidade. Ela é existencial. E o que aprendemos com sua paixão? Pobre do homem que acha que os problemas do mundo estão nos outros.


III

Meu corpo é um jardim
E a minha vontade é o jardineiro.
Talhei minha coragem no marfim,
Iluminei horizontes com ofuscante candeeiro.
Oh! Admirável mundo novo!
Cheguei sem deixar saudade.
Conheci fronteira, sentimento, arma, povo,
Mas minha melhor bagagem é a idade.
Cicatrizes serão sempre inevitáveis.
Antes amar que ser amado,
Pois todas as regras são execráveis,
Afora, o melhor amor é o amor ofertado.
            Até logo, neste instante te vejo, até breve, adeus”
            Hoje não existe porto para os sentimentos meus.


Vou realizar uma quebra no protocolo, que é publicar um texto não autoral, mas uma vez que falamos em Shakespeare, seria uma mácula não socializar tal soneto, com tradução de Ivo Barroso.:

SONETO 66

Farto de tudo, a paz da morte imploro
Para não ver no mérito um pedinte,
E o nulo se ostentando sem decoro,
E a fé mais pura em degradado acinte,
E a honra, que era de ouro, regredida,
E a virtude das virgens violada,
E a reta perfeição ser retorcida,
E a força pelo fraco subjugada,
E a prepotência amordaçando a arte,
E impondo regra o tolo doutoral,
E a verdade singela posta à parte,
E o bem cativo estar do ativo mal:
            Farto de tudo, a morte é o bom caminho,
            Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.


Por hoje é só. Sem mais delongas, um fraterno abraço.

Um comentário:

  1. É, meu amigo, a poesia sempre fustigante e misteriosa busca nos puxar para o emaranhado de sentimentos e sensações que nos provoca a descobrir de onde viera a inspiração do seu "obreiro". Penso agora estar um pouco mais perto do que me parece inspiração. Mas a totalidade da compreensão é impossível. E indesejável, até. E assim nos entregamos ao deleite da sua leitura e absorção sentimental. Cada um no seu mundo, o que nos faz apreciá-la por focos diferentes. E é isso que a torna bela e ainda mais sedutora. Abraço fraterno!

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