quinta-feira, 5 de novembro de 2015

VELHO

Tenho um amigo que desde a adolescência me cumprimenta com um carinhoso "e aí, velhinho?" pelo gosto compartilhado por um certo desenho animado de um coelho de 'pernas longas'. Meus dezesseis completaram vinte e seis no dia cinco de setembro deste ano, portanto, estou mais pra lá do que pra cá. Neste subir e descer das marés, amadurecemos nossas rugas e vemos o tempo passar, o que me fez ruminar:

Velho

Avisto a tarde alegre e faceira janela afora, brincando.
Ê vida que se farta e abunda em cores, sons, formas,
tamanho, sentido, texturas, duração, possibilidades.
Meu medo permanece ali protegido pelas paredes,
portas, chaves, grades, muros e cercas elétricas,
enquanto o farfalhar me convida a vida, venha.
Mas medro os meus passos e evito a fantasia,
proíbo desejos e nem quero mais sair.
preso aqui dentro, dentro de mim,
me fecho, recolho meu medo,
meus lindos anseios e
vou dormir.

Velho é o mundo. Passamos por fases que minam nossa coragem e determinação, mas não nos deixemos abater. Seguir em frente sempre. Este ano meu pai e minha mãe morreram para esta existência, digo assim, desta forma, não porque acredito em outra existência qualquer, mas porque assim não parece que acabou pra sempre e se nada  é pra sempre... mas toda regra tem exceção. Por hora desconheço o mundo, mas me ergo pra descobrir novo caminho.


Aí esta uma foto dos meus dezesseis ao lado de D. Luzia, minha mãe. "Aquele que não conhece sua história, está fadado a repeti-la". É impossível ignorar tudo o que esta mulher doou durante sua vida pela criação e educação de seus seis filhos. Ela teve sete, mas uma menina, Adriana, morreu aos cinco anos. Os demais estamos aí, evoé!

ENTRANHAS

Amanheço com o sol
Pondo ao molho as barbas,
Levanto sem cotovia ou rouxinol
Quarando as mágoas lavadas.
Cantiga clarão da alvorada
Que avança dia em luz,
Deixando atrás de si a madrugada
E a chuva em lágrimas conduz.
Antes assim que assado
Pois hoje exige-se mais,
Disposto permaneço parado
Parado, virgula, vivo assaz.
        Caminhar em mansa vida para a morte,
        É o certo destino de quem tem sorte.

Poesias dedicadas a D. Maria Luzia dos Santos Moreira. Caros amigos, até breve. Um fraterno abraço,


Alam Félix

5 comentários:

  1. Velho, Vehinho, Nego, Negão ou "Ngão" - esse último, mais curto e usual nas redes sociais - variações das formas de tratamento / chamamento aos amigos juntou-se ao seu belo escrito sobre o tema e nos fez lembrar, mais que isso, refletir sobre a necessidade humana de agregação, companhia e, sobretudo, escuta e atenção. Bom reencontrar amigos e tecer um novo e valioso cordão de ligação, notadamente nesse momento um tanto carente de sensibilidade. Valeu "Negão"! Em frente com a sua bela e sensível produção artística tocando a todos nós,"ET's" meio desconectados com esse modelo de comunicação de massa que por vezes nos sufoca. Luto por absorver o "bom oxigênio" e você se apresenta como fonte de destacada importância. Abraço arrochado!

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  2. Em tempo (ainda se usa isso? Rsrs): Bonita e mais que justa homenagem àquela que - como já lhe disse anteriormente - foi uma verdadeira heroína na dedicação e no amor aos filhos, sua mãe LUZIA.

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  3. Boa noite Nando. Engraçado ler "Fernando Campos" quando estamos acostumados a "Fernandinho". D. Luzia tem feito muita falta e eu ainda não me acostumei ao nunca mais. Quando estou só, me permito a "curtir" mais a dor da sua ausência. Isso me ajudar a "curar", digo no sentido popular da coisa, assim ela vai minando vai se transformando em outra coisa... no corre-corre das demandas diárias não se "cura" nada, isso leva tempo. Que bom ter você por aqui. Abração Ngão. Rsrsrs

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  4. Mais um belo escrito (acho ótimo ler o preâmbulo, sim!) prá se ler e parar prá matutar, seja sobre o tema exposto pelo autor se desnudando, seja pelo próprio autor - a quem conhecemos de longa data e ficamos a avaliar o processo de maturação, tal qual bebidas destiladas - ou seja mesmo pela tentativa de aplicar o próprio poema sobre nós, leitores. E "essas mortes" por você aludidas, poeta, nos preenchem a vida a todo momento e nos dizem que os intervalos entre elas devem ser intensamente usufruídos, principalmente com belos fazeres, como a poesia. Siga, nos seus "intervalos entre mortes" nos brindando com a vida. Grande abraço!

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  5. Uma dor que aos poucos desfilou em delícia. Meu velho, como estão as meninas? Mando um abraço e "uma pause de mil compassos". Até breve.

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